• Assoc. Pediátrica Viana

Quando não correr bem... Também pode ser bom!


Quando comecei a estudar Parentalidade Consciente, houve vários momentos em que pensei para mim: “estou a fazer tanta coisa errada”, “como vou conseguir ser a mãe que quero ser?”. Tive a sorte de me encontrar com o Mindfulness, nessa mesma altura, que me ensinou a auto-compaixão, e percebi que em primeiro lugar tinha de largar todas as expectativas, todos os julgamentos e aceitar-me tal como era. Só depois dessa aceitação e perdão pessoal é que eu fui capaz de iniciar a viagem transformadora da parentalidade, aproximando-me cada dia mais da pessoa e mãe que realmente quero ser.


Por isso a mensagem para hoje é:


Mesmo quando não correr bem, mesmo quando não conseguires ser quem queres ser, perdoa-te e confia que esses momentos também te fazem crescer, a ti e ao teu filho.

Pais conscientes, são pais humanos e portanto imperfeitos, que procuram educar sem castigos, sem gritos nem palmadas mas que por vezes cometem erros e se desviam das suas intenções. A diferença reside no facto de que, pais conscientes dão tanta importância à relação que estabelecem com os seus filhos, que procuram restaurá-la ao mais depressa possível após cometerem os seus erros. E é precisamente aqui que acontece a aprendizagem e o crescimento para ambos.


É tão bom quando conseguimos manter a calma, sermos carinhosos, compreensivos e pacientes com os nossos filhos, não é? Mas quando não conseguimos sentimo-nos péssimos pais, certo? Normal, todos sentimos isso.


Se fazes parte daquele grupo de pais que procura educar com respeito pela tua criança e com a intenção de promover nela uma auto-estima saudável, então não fiques triste quando as coisas não correm como querias. Estes momentos, em que fazemos tudo errado, podem ser valiosos para os nossos filhos porque também lhes proporcionam experiências difíceis com as quais aprendem a lidar (desde que os ajudemos a desenvolver competências para tal).


Quando um filho percebe que o pai não é perfeito, fica mais tranquilo porque entende que ele próprio também não o é. Que há margem para errarmos e que isso não faz de nós pessoas com menos valor. Se pensarmos bem, os nossos filhos são muito tolerantes connosco e perdoam-nos facilmente, não acham? E ao contrário? Será assim tão fácil para nós tolerarmos as imperfeições e os erros dos nossos filhos? E não serão os nossos filhos criaturas ainda mais merecedoras de compreensão e perdão, atendendo ao facto do cérebro pré-frontal deles (responsável, entre outros, pela auto-regulação dos comportamentos e das emoções) não estar suficientemente desenvolvido?


E em que medida uma criança pode aprender algo quando vê o seu pai ou mãe perderem a cabeça? Na medida em que, quando esse pai ou mãe toma consciência do seu erro, é capaz de o comunicar ao seu filho, pedindo desculpas e procurando restabelecer a ligação entre eles. Pode ser algo do género: “Filho, quero falar contigo sobre o que aconteceu há pouco. Estava muito nervoso, com muita dor de cabeça, e fiquei chateado quando vi que ainda não tinhas feito os trabalhos de casa. Gritei contigo e disse-te coisas que te deixaram triste e zangado. Para mim é importante cumprir com os compromissos, e os trabalhos de casa são o teu compromisso com a escola e o professor, pelo que fico muito nervoso quando não os fazes. Mas isso não me dá o direito de gritar contigo e chamar-te nomes feios, por isso peço-te desculpa. Quero que saibas que gosto muito de ti.”


Nestas situações, uma criança aprende que errar é humano mas que o nosso comportamento tem impacto nos outros. Que é importante assumirmos os nossos erros, pedirmos desculpa (com enquadramento) e manifestarmos o amor pelo outro (a relação é mais importante do que qualquer conflito que possa haver). Uma criança que é educada desta forma, cresce com mais segurança e menos receio nas relações futuras. Aprende a confiar que a calma e a ligação sucedem ao conflito.


Isto não quer dizer que devemos de propósito errar para depois trabalhar estas competências de “restauro da ligação” ou que não devemos tentar fazer sempre o melhor que conseguimos, com os recursos que temos disponíveis, para lidarmos com os nossos filhos em situações de tensão. Quanto mais presentes, calmos e conscientes podermos ser na relação com os nossos filhos, melhor. Mas os momentos em que as coisas não fluem de forma positiva vão acontecer e é nesses momentos que devemos saber praticar compaixão connosco próprios.


Para mim, a prática de Mindfulness é imprescindível na vivência da parentalidade. Porque nos ensina a sermos mais gentis connosco. E essa relação positiva connosco serve de modelo de auto-estima para os nossos filhos. Através de nós, eles aprendem a ser amáveis com eles próprios e com os outros. Aprendem a aceitar as suas imperfeições e a tolerar as dos outros. Aprendem a viver o conflito de forma possibilitadora em vez de limitadora. Aprendem a ser empáticos e a amar.


Atenção! Se a abordagem dos pais for sistematicamente baseada em castigos, palmadas e gritos, evidentemente que estarão a prejudicar significativamente a relação com os filhos, pelo que nestes casos o efeito pode ser muito danoso para a criança. Aqui, sugiro a procura de um profissional, de preferência um psicólogo com formação clínica adequada e com experiência no trabalho com famílias baseado na abordagem da parentalidade consciente.


Nos momentos em que perdes a cabeça com o teu filho, talvez possa ajudar pensar que:


"Os filhos não precisam de pais perfeitos, precisam de seres humanos que saibam falar a sua linguagem e que consigam penetrar no seu coração." (Augusto Cury)

Autora: Zulima Maciel

Psicóloga Clínica/Instrutora de Mindfulness/Facilitadora de Parentalidade Consciente

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