• Assoc. Pediátrica Viana

Doença de Kawasaki e Covid-19: o que há a saber?



Nos últimos dias temos sido confrontados com múltiplas notícias que alertam para o aparecimento de uma doença rara e potencialmente grave em crianças, provavelmente relacionada com a infeção pelo novo Coronavírus. De facto, em alguns países europeus, como Reino Unido, Itália, França e Bélgica, têm sido reportados casos com as características da Doença de Kawasaki, em números crescentes, mas pequenos.


Mas o que é afinal a Doença de Kawasaki? Como se deteta? Que consequências pode ter?



O que é?


A doença de Kawasaki é uma vasculite sistémica. Isto significa que é caracterizada por uma inflamação intensa da parede dos vasos sanguíneos, presentes em todo o corpo.



Esta é uma doença rara e afeta maioritariamente crianças dos 6 meses aos 5 anos de idade. Ocorre ainda menos frequentemente em crianças mais velhas.




Esta doença poderá ter resultado do novo Coronavírus? Quais são as causas?



A doença de Kawasaki não é uma “doença nova”, logo não surgiu devido ao novo Coronavírus. A primeira descrição da doença aconteceu em 1967 e é da autoria de um pediatra japonês, Tomisaku Kawasaki.


As causas da doença de Kawasaki não são conhecidas. Pensa-se que a doença possa estar relacionada com agentes infeciosos (como os vírus) que provocam uma desregulação do sistema imunitário, “atacando” erradamente os vasos sanguíneos. Assim, realmente, tal como outros vírus, há possibilidade do novo Coronavírus estar implicado no aparecimento da doença de Kawasaki. Contudo, esta hipótese não está confirmada. Entre as crianças recentemente diagnosticadas com doença de Kawasaki existem quer casos positivos, quer negativos de COVID‑19.


Quais são as manifestações clínicas?



Na fase inicial, as crianças com doença de Kawasaki podem apresentar muitos sintomas e sinais diferentes:


  • Febre, geralmente elevada, com duração igual ou superior a 5 dias

  • Irritabilidade ou prostração

  • Manchas no corpo, avermelhadas, com relevo, que podem ser mais intensas na região genital

  • “Inchaço” das mãos e dos pés, que podem também encontrar-se muito vermelhos na zona das palmas e das plantas

  • Olhos vermelhos, que fazem lembrar uma conjuntivite

  • Fissuração, “inchaço”, vermelhidão e até sangramento dos lábios

  • Língua com textura irregular, a fazer lembrar o aspeto de um morango

  • Tumefações no pescoço, devido ao aumento do tamanho dos gânglios linfáticos

  • Dor abdominal, vómitos ou diarreia

  • Dificuldade respiratória



Manifestações da Doença de Kawasaki: A – olhos vermelhos; B – lábios muito vermelhos, inchados, fissurados e sangrantes; língua com aspeto de um morango; C-palmas das mãos vermelhas e inchadas; D – pés inchados; E – manchas na pele; F – manchas vermelhas intensas na região genital





A partir do 7º-14º dia da doença surge uma descamação intensa da pele à volta das unhas, que se estende para os dedos, palmas das mãos, plantas dos pés e depois para o resto do corpo.







Quais são as complicações possíveis?


A doença de Kawasaki é uma doença grave. A complicação mais preocupante é a possibilidade de causar danos nas artérias coronárias, as artérias que conduzem o sangue ao próprio coração. Estas lesões coronárias acarretam risco de Enfarte Agudo do Miocárdio. Em muitos casos as alterações nas artérias coronárias são reversíveis.



Raramente, as crianças com doença de Kawasaki podem apresentar-se em choque, um estado crítico que pode exigir medidas rápidas para salvar a vida.


Como se faz o diagnóstico de Doença de Kawasaki? É necessário fazer exames complementares de diagnóstico?



Não há qualquer exame para diagnosticar especificamente a doença de Kawasaki. O diagnóstico é estabelecido através de um conjunto de critérios que engloba manifestações clínicas e achados possíveis compatíveis com a doença nos exames complementares de diagnóstico. Assim, alguns exames serão pertinentes, nomeadamente análises de sangue, urina, eletrocardiograma e ecocardiograma.


Qual é o tratamento da Doença de Kawasaki?



O tratamento inicial é a administração de imunoglobulina intravenosa, isto é, anticorpos que vão controlar a atividade inflamatória. A criança também deverá tomar ácido acetilsalicílico. Estas terapêuticas diminuem significativamente a probabilidade de complicações, sobretudo se forem iniciadas atempadamente.


Em alguns casos pode haver necessidade de dar corticóides e outros tratamentos mais específicos.


Há motivo para estarmos preocupados com a Doença de Kawasaki no contexto da pandemia da COVID-19?



A maioria das sociedades de pediatria internacionais apela à tranquilidade das famílias no que diz respeito à possível associação da doença de Kawasaki com a COVID-19. Isto porque, é uma condição muito rara. Adicionalmente, o acesso aos serviços de saúde com profissionais treinados para reconhecer a doença permitirá uma atuação atempada perante a mesma. Assim, embora a descrição da doença possa ser assustadora, o importante é mesmo manter a calma, de modo a ser capaz de reconhecer os sinais que devem levar a procurar ajuda médica rapidamente.



Autores: Vera Gonçalves, Sandrina Martins

S. Pediatria da ULSAM

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