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  • Assoc. Pediátrica Viana

Todos temos os nossos limites!


Apesar da evolução em matéria de educação, os pais e educadores mantêm muitas vezes a mesma questão: “Como fazer as crianças respeitar os limites?”


Primeiro há que definir o que são limites. Antigamente, falava-se apenas de regras internas da família que no fundo correspondiam a regras sociais que os adultos definiam e às quais as crianças tinham de se conformar. Por várias razões é fácil perceber que a antiga maneira de fixar limites não funciona nos tempos de hoje, embora se mantenha o mesmo problema: muitas crianças não estão a aprender a respeitar as pessoas mas sim a obedecer ao poder de um adulto. Assim sendo, a antiga maneira de impor limites assenta num abuso de poder e numa manipulação pedagógica que conduz uma criança a cooperar com adultos dos quais está dependente.


Concordo totalmente que as crianças necessitam de limites para se sentirem em segurança, mas a minha intenção é despertar em ti a atenção para a importância de aprendermos a considerar os limites de outra forma.


Em vez de pensarmos em limites como algo que só diz respeito às crianças, nós adultos devemos começar a colocar limites para nós mesmos. Ou seja, primeiro, há que aprendermos a definir os nossos limites pessoais na interação com as crianças (e não só). Esta mudança de paradigma propõe que o foco deixe de ser o poder autoritário focado no outro para ser a autoridade pessoal do adulto, aquela que se desenvolve à medida que os nossos limites pessoais estão a ser desafiados ou ultrapassados por uma criança ou outro adulto. Para que isto aconteça, o adulto tem que assumir responsabilidade pessoal pelos seus limites e usar uma linguagem pessoal quando os comunica.


Existem basicamente dois tipos de limites: os gerais e os pessoais: Os primeiros são relativamente estáveis e podem dizer respeito aos limites de uma família, de um grupo, de uma organização. Os segundos são menos estáveis e variam consoante o nosso estado emocional.


Em ambos os tipos, o uso de uma linguagem pessoal na comunicação desses limites é fundamental! Porquê? Porque é mais fácil e mais gratificante para uma criança respeitar uma pessoa como o pai, a mãe, a professora, do que respeitar “regras” gerais e impessoais.


Olha a diferença:

Mãe: “Nesta casa, não se come no sofá!” (Limite geral comunicado de forma impessoal) Mãe: “Eu não quero que comas no sofá, na nossa casa.” (Limite geral comunicado com linguagem pessoal).


As crianças cooperam quando nos dirigimos a elas de forma pessoal e com igualdade. Quando as fazemos sentir más, envergonhadas, inferiores ou irresponsáveis, elas não agem de forma muito diferente dos adultos. Pois não?


Os limites gerais numa família, por exemplo, diferem de casa para casa. São limites que servem apenas aquela família e os seus membros e que dizem respeito à rotinas e tarefas relacionadas com as refeições, a higiene, a arrumação, o tempo de lazer, entre outros. As coisas fazem-se de maneira diferente e em cada casa é que deve ser definido “o que se faz” e “o que não se faz”. O mesmo acontece numa turma ou num clube desportivo.


É muitas vezes aqui, nestes contextos, onde os adultos perdem o controlo e referem-se às crianças como “ela porta-se mal”, “precisa de mais regras”. Será?


A investigação demonstra que as crianças, por natureza, são muito cooperantes. Quando algo não está bem (e muitas vezes algo não está bem com aquela mãe, aquele pai, aquele professor), ela coopera com o seu comportamento (que os adultos rotulam de desafiador) comunicando que algo não está bem aqui. E é nesses momentos que, nós, adultos, devemos nos questionar: “Esta criança precisa mesmo de mais limites? Ou precisa de mais conexão da minha parte e eu não estou a conseguir porque os meus limites pessoais estão a ser ultrapassados?”


Os limites pessoais dizem respeito ao que eu quero/não quero, agora. Variam e estão muito dependentes do meu estado emocional (e físico) e devem sempre ser comunicados com uma linguagem pessoal! Olha só como:


“Eu não quero que ligues a televisão agora, eu quero silêncio.”

“Eu quero falar com o teu pai agora, a seguir brinco contigo.”

“Eu quero ficar sozinha na casa de banho hoje, por favor sai.”


A linguagem pessoal é a parte essencial da comunicação. Connosco a criança pode aprender que nem sempre tem tudo o que quer (tem de respeitar os limites pessoais do outro) mas também aprende que pode comunicar o que quer/não quer aos outros (os outros têm de respeitar os seus limites pessoais, também!). Esta é uma relação baseada no igual valor.


Numa relação pais-filhos, por exemplo, quando a comunicação não é estabelecida tendo como base o igual valor, a vontade natural da criança não vai ser colaborar. À medida que a criança percebe que tem de respeitar os limites dos pais em detrimento da sua integridade, sente-se cada vez pior enquanto filho (inconscientemente vão se construindo crenças limitadoras do género “eu não tenho valor”, “eu não sou merecedor de amor e respeito”) e será cada vez mais difícil para ele ter um comportamento ajustado. Numa sala de aula, acontece o mesmo fenómeno.


A nossa responsabilidade parental (ou enquanto educadores) não é a de impor uma dita “boa educação” muitas vezes à custa da integridade física e emocional da criança. A nossa responsabilidade é ensinarmos às nossas crianças, com o NOSSO EXEMPLO, que o que EU QUERO/NÃO QUERO pode ser comunicado de forma respeitadora, carinhosa, clara e assertiva.


Quando comunicamos os nossos limites com uma linguagem pessoal temos de ter em atenção que esses limites são mesmos nossos. Caso contrário, é mais uma máscara que eu quero usar para me sentir bom pai ou boa mãe ou bom professor. E uma criança percebe quando a comunicação é autêntica! Ela percebe se dizes NÃO porque é mesmo não para ti ou se dizes não porque achas que é o que é suposto dizer naquela situação ou porque tens mais pessoas a olhar para ti. Sabes como? Porque quando ela percebe que não te estás a expressar de forma pessoal, autêntica e congruente, ela procura os teus limites verdadeiros “testando-os”. Com o seu comportamento a criança quer no fundo saber quem tu és de verdade, porque precisa de conhecer os teus limites para sentir segurança. Uma criança que não conhece os limites pessoais e autênticos dos pais comunicam a sua insegurança tornando-se medrosos, passivos, ou hiperativos. Porquê? Porque sente-se sozinha, sem guia.

“Crianças que são tratadas com respeito, tratam as outras com respeito. Crianças pelas quais há preocupação, também se preocupam com os outros. Crianças cuja integridade não é violada, não violam a integridade dos outros.” (Jesper Juul)

Autora: Zulima Maciel (Psicóloga Clínica/Instrutora de Mindfulness/Facilitadora de Parentalidade Consciente)

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