• Assoc. Pediátrica Viana

Obesidade infantil - Perguntas e Respostas. Parte I


Qual a importância de falarmos deste tema?

A importância de falarmos sobre a obesidade infantil prende-se com números – alarmantes! São 42 milhões de crianças abaixo dos 5 anos e mais de 340 milhões de crianças acima dos 5 anos mundialmente com excesso de peso.



A obesidade é considerada doença desde o ano de 2000 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e o problema é que não tem sido encarado como tal, e os números não param de crescer, mesmo nos países em desenvolvimento. Sabe-se que os problemas de saúde a nível mundial associados à obesidade já superam os causados pela desnutrição, e em Portugal, 1 em cada 3 crianças tem peso a mais.


Evitar este ciclo vicioso de gerações e gerações de famílias com obesidade devia ser uma missão de todos nós.

Como é que surge a obesidade?


Mais de 97% dos casos de obesidade infantil acontecem por maus hábitos alimentares e comportamentais. A maioria por um mau equilíbrio entre o que se come e o que se gasta, ou seja, as calorias, a energia que nós metemos no nosso corpo não é gasta de forma equilibrada. Em vez de manter um peso estável, estamos a aumentar de peso de dia para dia, porquê?


  • A mãe ansiosa porque não quer que o filho perca peso

  • A avó que mima com o bolinho e a bolachinha e acha que está magrinho

  • Os pais que se desinteressam ou que desconhecem o mal que um tipo de alimento pode fazer (ex: ice-tea que acham que é inócuo, porque é chá e água - mas tem muito açúcar)

  • Dar alimentos como pedido de desculpa ou como prémio

  • Dar doces como compensação pela ausência pelo trabalho

  • Família com obesidade - a mãe, o pai e irmãos são também obesos – (o mais difícil de corrigir, porque temos de intervir em toda a família)

Só uma minoria, em < de 3%, é que a obesidade é consequência de outra doença, como doenças hormonais, neurológicas ou após a toma prolongada de medicamentos como os corticoides.


Sabemos ainda que os maus hábitos de sono, o stress físico e psicológico podem também desencadear ou agravar uma obesidade.


Como podemos saber que o nosso filho/filha tem obesidade?


O que define obesidade é o excesso de gordura corporal, que se pode estimar pelo Índice de Massa Corporal (IMC), que não é mais que uma conta matemática que tem em consideração o peso e altura da criança. Enquanto que no adulto, este valor tem limites para classificar a obesidade em vários estadios, na criança é preciso termos em consideração que está em crescimento – precisamos de saber a sua altura e se é menino ou menina para o podermos interpretar.


Para isso, usamos gráficos da organização mundial de saúde que vão ter isso em conta e nos dão uma ideia mais concreta do que seria o considerado normal e adequado. Este gráfico facilita a forma como os pais e a criança/adolescente se vêm num ponto específico, definem objetivos e acompanham a sua evolução – a linha verde corresponde ao peso considerado “normal” para a idade. Acima da linha vermelha, já é considerada obesidade.


1. Calcular o IMC – peso (kg)/altura^2 (m)

2. Fazer a correspondência entre a idade da criança/adolescente e o valor de IMC no gráfico de rapaz/rapariga

3. Interpretar as linhas verde, laranja e vermelha




Além do valor do IMC, a gordura abdominal, à volta da barriga, deve ser sempre medida, pois é esta a gordura que mais preocupa – a que se instala de forma persistente à volta dos órgãos do nosso corpo e provoca problemas a curto e a longo prazo.


Que problemas são esses?


Problemas físicos/doenças a longo prazo


  • Enfarte

  • Diabetes

  • Tensões altas

  • Colesterol alto

  • AVC

  • Má circulação

Infelizmente estas situações não vão aparecer só depois dos 50 anos. Vão aparecer muito antes disso. Há dados que apontam para um aumento da mortalidade já aos 30 anos de vida. Isto porque é uma obesidade que surge na idade infantil e vai estar instalada durante mais anos de vida e durante o período de crescimento, diferente da obesidade que surge apenas na vida adulta.


Problemas físicos/doenças a curto prazo


  • Dificuldades motoras: andar, correr, brincar, jogar, fazer desporto

  • Transpiração excessiva

  • Dificuldades na respiração: asma, ressonar, apneia do sono

  • Dores articulares: anca, joelhos, tornozelos (suportam peso excessivo para o corpo)

  • Dermatite atópica: agrava com a obesidade

  • Fígado gordo e colesterol alto

Estes são problemas imediatos que vão afetar a qualidade de vida e o desenvolvimento esperado da criança com obesidade neste preciso momento.


Impacto psicossocial


  • Isolamento social

  • Depressão

  • Baixa auto-estima

  • Dificuldade nas relações interpessoais

  • Mau rendimento escolar

  • Medo e vergonha

  • Bullying/bully

Geralmente estes problemas começam por volta dos 6-7 anos quando vão para a escola primária e começam a aperceber-se da sua imagem corporal, das suas limitações físicas e após serem confrontados pelos colegas, que nestas idades podem ser cruéis. Tanto podem sofrer de bullying, como serem eles próprios os bullies, porque são maiores que os meninos das suas idades e usam esse poder para se esconder atrás da sua insegurança. Qualquer um dos dois sofre muito.


Estes são os que mais impacto têm no crescimento e desenvolvimento duma criança obesa e que terão sérias implicações nas relações interpessoais que vão desenvolver ao longo da vida e até no próprio rendimento escolar. São crianças que vão ter receio de ir à escola, que não gostam das aulas de educação física, que sentem vergonha de ir à praia e de se ver ao espelho, com consequências avassaladoras no futuro.


Esta criança, vai torna-se adolescente e adulto obeso e passar às gerações futuras aquilo que viveu e aprendeu.

Como é que podemos prevenir a obesidade?


A forma mais fácil é evitar o ganho de peso excessivo. Porque depois de instalada a obesidade, torna-se muito mais difícil (mas possível!) voltar atrás.


Durante a gravidez


Os comportamentos familiares e o peso da mãe quando engravida vão já influenciar o peso futuro do bebé. Os hábitos alimentares e de exercício físico têm de ser trabalhados desde esta fase, para que entre num meio de uma família com hábitos saudáveis.

  • Normalizar peso antes da gestação

  • Controlar aumento de peso (evitar mais de 10-12kg)

  • Praticar atividade física regular

  • Alimentação equilibrada e saudável

  • Incentivar e preparar a mãe para o aleitamento materno


No primeiro ano de vida


O primeiro ano de vida é aquele em que a criança aprende o que é a comida e o que é comer – descobre os sabores, as texturas, e as regras das refeições. É importante respeitar os sinais de fome e também os de saciedade, de forma a evitar a sobrealimentação e educar a própria vontade de comer.


  • Promover o aleitamento materno

  • Introduzir diversificação alimentar entre os 4 e os 6 meses de vida (conforme desenvolvimento e indicação do pediatra/médico assistente)

  • Aprender a aceitar as necessidades (não forçar a criança quando esta recusa)

  • Respeitar horários de refeições

  • Promover atividade física entre refeições: <6M - tummy-time (30 minutos 3x/dia); > 6M - jogos e atividades que exijam mobilidade; evitar períodos excessivos na cadeirinha

  • Evitar excesso de leite e iogurtes na infância (<500-700ml/dia)

  • Insistir com a oferta de verduras e frutas variadas, apostando nas diferentes texturas e cores

  • Oferecer alimentos com copo ou colher

  • Evitar utilizar telemóvel ou TV no momento das refeições

Na idade pré-escolar


Aos 12 meses é habitual o pediatra ou médico assistente dizer “agora pode comer tudo o que a família come – pode fazer a dieta familiar”. No entanto, se a dieta familiar não for equilibrada, diversificada e for rica em açúcares, sal e gorduras, esta não será a dieta mais apropriada para esta criança. É essencialmente nesta fase que ela vai adquirir gostos, preferências e hábitos alimentares e portanto é uma altura crucial na prevenção da obesidade.


  • Promover refeições em família em horários fixos

  • Restrição de açúcares, fritos, sumos, chocolates, gorduras

  • Água como única bebida às refeições

  • Insistir com oferta de frutas e legumes na sopa mas também no prato ou incorporá-las na massa ou arroz

  • Evitar compensar a má alimentação com condutas como dar leite no biberão

  • Evitar premiar com alimentos

  • Promover jogos ativos e atividade física em família

  • Incentivar a ajuda nas tarefas domésticas – participação da criança na ida às compras, confeção de alimentos, pôr e levantar a mesa, levar o lixo, …

  • Restrição de uso de ecrãs até aos 18 meses e nunca às refeições

  • Limitar a < 2h a atividade sedentária (tempo de sofá, TV, telemóveis)


Na idade escolar


Na idade escolar, é frequente haver um aumento de peso entre os 6-8 anos chamado de ressalto adiposo, que não é mais que uma preparação para o estirão de crescimento e alterações hormonais que se dão na puberdade. No entanto, devemos estar atentos a que este não ocorra em excesso e que não tenhamos uma obesidade prévia que pode agravar neste momento. É também nesta fase que a criança adquire mais autonomia e os hábitos e preferências alimentares ficam mais evidentes.


  • Incentivar a toma de pequeno-almoço com horário fixo e em família, incluindo lácteos, fruta e cereais (pão, aveia, cereal)

  • Alimentação variada e diversificada, favorecendo frutas e legumes da época

  • Fazer 4-5 refeições diárias e evitar snacks

  • Água como única bebida às refeições

  • Refeições em família sem recurso a ecrãs

  • Incentivar a atividade física no exterior e participação em desportos coletivos ou estruturados (natação, futebol, dança, …) – mínimo 1h diária

  • Limite de horas de ecrãs diário de 2h

Na adolescência


Na adolescência há uma série de alterações bio-psico-sociais que levam a comportamentos de risco, incluindo no que diz respeito aos hábitos alimentares.

  • Atenção à pressão de pares

  • Incentivar a manter hábitos alimentares saudáveis

  • Reforçar importância de desporto e atividade física

  • Limite de uso de ecrãs a < 2h


Alimentos proibidos


  • Sumos

  • Molhos

  • Chocolates

  • Enchidos

  • Batata frita

  • Cereais de chocolate

  • Bolachas

  • Pão de forma/croissant/lanche

Estes alimentos não deverão entrar em casa de todo – para ninguém – nem para o irmão que é magrinho. As crianças já vão ter naturalmente os dias de festa dos familiares e amigos para consumirem este tipo de alimento que não pode estar inserido na dieta familiar diária. E o irmão magrinho não precisa desses alimentos para engordar. Precisa de o fazer também de uma forma saudável, com ingestão de alimentos ricos em nutrientes e vitaminas.


Cuidados gerais a ter


  • Atenção às quantidades do arroz, massa, batata e pão

  • As necessidades da criança são menores e não devem ser comparadas à de um adulto nem entre si

  • Não levar as travessas para a mesa: o prato deve ser servido na cozinha – não dar hipótese de repetir

  • Máximo 2 pães por dia do tamanho da palma da mão e atenção ao recheio: evitar enchidos, chocolate, doces ou marmelada

  • Refeições em família com horários fixos, sem recurso a ecrãs

  • Comer devagar: mastigar 10-15 vezes cada alimento (o nosso cérebro demora 20 minutos a processar que estamos cheios)

Há mudanças radicais que têm de ser feitas a nível familiar mas não só – também no marketing infantil e nas escolas, onde passam grande parte do seu tempo.

Continua - Parte II.

Autores: Carolina Germana Silva, Ana Catarina Carneiro

Serviço de Pediatria ULSAM

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